Thursday, April 09, 2009

A voz de Cordeiro, de Narciso, de Platão...


Era 1999... Nessa época eu estava muito entusiasmado com a minha primeira experiencia em cinema e roteiro. A idéia era fazer algo realmente sincero e genuíno no campo do desenho animado. Eu comecei escrever e desenhar... e nos meu desenhos sentia que meus traços buscavam (de novo) o Belo. Esta voz de Platão encontrou o Seu Narciso (que, por sua vez, encontrou Briamonte, Adoniran e Cordeiro)...

O album "Terceiro Sinal" de Edson Cordeiro foi como um oráculo - misterioso, sedutor, requintado. Entre uma faixa e outra, deslizava-me Por um fio numa busca do "belo". Fui mais profundo, mais sincero, e veio como a Primavera, suave brisa morna, cheia de flores. Adoniran soprou nos meus ouvidos, o clarone cínico e provocador, e acordei ouvindo (e vendo) os primeiros acordes desta obra-prima: "Despejo na Favela" sob os veludos de Miguel Briamonte e Edson Cordeiro...

Neste instante, subi meu terraço, e vi as lajes, os varais de roupa ao meu redor, curioso à procura do alvorecer. O Verão, Aos Pedaços, coloria(m) mais a minha vida e aquecia minha esperança. "Tudo está tão belo!" Assim, todo o meu imaginário foi convocado, e as memórias de Gabiru me ajudaram a compor o mundo de Seu Narciso. "O Despejo..", é na verdade um resultado disso - de uma convocação do belo e do verdadeiro. Seu Narciso, este Platão, prefere abrir janelas em busca das respostas neste mundo escravizado pelo aborrecimento...e reconhece, como Xerxes, um canto ao singelo, ao puro, a beleza simples da sombra de uma árvore.

"...e che sospiri la libertà!"

Tuesday, April 07, 2009

ENTOADA


Chego à janela, observo o dia chegar. O céu ainda escuro de um lado, cintila suas estrelas, agonizantes com a luz que chega ao redor. Na cidade lá em baixo, vejo suas luzes piscarem sob um veludo escuro e silencioso que corta o horizonte, protegendo o frágil desenho dos prédios. Pincelando a baía, surge o sol impetuoso, ascende o dia! Mas na redondeza vejo ainda a noite, o desespero dos morcegos e a agonia das cigarras entoando um cântico trágico. Foi-se o silêncio, surrupiado pela sinfonia enlouquecedora, angústia do inevitável. No véu suntuoso do alvorecer surge o reinado da estrela da manhã, e faz brotarem pássaros dos telhados como flores primaveris, que esperançosos, entoam uma cantarola varonil e alegre. Curioso... na redondeza ainda era escuro como madrugada! Surge entre a luz magra do poste a figura de um homem, pobre ser de relógio de pulso, alheio ao tempo das cigarras, dos morcegos e dos pássaros, das flores, da luz... Alheio a tudo! Assim, vejo-o diminuto e o perco! Some na escuridão daquele resto de madrugada, um ínfima parcela do todo, foi... ignorante.

Friday, November 14, 2008

Prêmio Itamaraty para o Cinema Brasileiro




Esta foto foi tirada da janela de seu Narciso hoje de manhã(eu mesmo!) e exprime a alegria que sinto ao receber este prêmio, tão estimulante, tão iluminador...

Mas, mais felicidade é poder partilhar, dividir esse raiar com todos vocês, minha equipe de profissionais (e amigos!) maravilhosos. Dedico este prêmio como um reconhecimento de um trabalho feito com muito comprometimento, e sobretudo, amor. A todos vcs desejo que esta alvorada aconteça em todos os dias de 2009!

Parabéns a todos nós!

http://www.dc.mre.gov.br/box-02/premio-itamaraty-para-o-cinema-brasileiro

Friday, August 22, 2008

Exibições no 19º Curta Kinoforum - SP





MOSTRA BRASIL 06

22/08 - 20h - Centro Cultural São Paulo
23/08 - 16h - CineSESC
26/08 - 21h - Cinemateca - Sala BNDES
27/08 - 16h - Espaço Unibanco Pompéia

Friday, August 01, 2008

Tuesday, July 15, 2008

Gabiru no Anima Mundi ´08


Capa da Revista Programa do Jornal do Brasil, em 11/07/08

Neste desenho, Gabiru - a infância - é quem sonha (assim projeta, desenha...) Narciso (a maturidade) é quem realiza os sonhos. Assim fica representada a familia, o carioca, o realizador e o público; a cidade e o festival nos personagens de Yamamura deslizando nas películas serpentinas... Dona Chica - a própria Anima, aplaude.

Friday, May 09, 2008

CONVERSAS COM ZECA 2D


Domingo último (11/05) eu e meu amigo Sandro Lopes tivemos um encontro com Zeca 2D no programa ANIMANIA da TV Brasil. Neste 0 papo falamos um pouco sobre o trabalho de direção de arte em desenho animado. Foram exibidas algumas sequências dos filmes "Matinta Perera", de Humberto Avelar, "Se essa rua fosse minha", de Sandro Lopes,"Atirei o pau no gato" e "Iara" de Sergio Glenes, acompanhadas de minhas produções como diretor de arte nesses filmes; alguns desenhos de conceito e estudos de cor.

A conversa termina com o nosso xodó do momento, o filme "O Despejo, ou Memórias de Gabiru", que inicia sua carreira de festivais neste ano. Falamos um pouco sobre o método adotado para tornar possível a produção do filme e também sobre o processual artístico (parte de dele publicado neste blog).

Foi uma conversa muito divertida, temperada de coincidências... Zeca 2D enfim achou o seu irmão há muito tempo desaparecido... Aproveitaram para trocar dicas e os melhores lugares de samba na Lapa...


Wednesday, May 07, 2008

CHUVA DE ABRIL - 2a Ed.

Enfim... depois de uma longa temporada de estiagem choveu nesta tarde. Começou suave, trazida por uma brisa refrescante com cheiro de terra. A brisa, vez em quando, fazia respingar os primeiros pingos de chuva sobre as janelas do meu apartamento, como também sobre as lentes dos meus óculos. Escureceu e acizentou. E a chuva cobriu com o seu véu as luzes da cidade que eu via lá longe e tomaram uma aparência esfumaçada e silenciosa. O sol já se ia tranquilo e, escondido de tudo, ainda matizava os vapores e as nuvens altas, assim tudo ficava mais ocre, ou lilas, ou azul, não sei... A temperatura caiu levemente, e tudo mais úmido, mais fresco, me trouxe uma sensação de relaxamento. Uma pequena trégua ao mormaço do meu ventilador... Mais aliviado do cansaço do "espírito de verão" que temos que manter até muito além de março. Sejam bem-vindas as aguas de março em abril!

Sunday, January 20, 2008

CORRA E OLHA O CÉU



de Cartola e Dalmo Castelo


Linda!
Te sinto mais bela
Te fico na espera
Me sinto tão só
Mas!
O tempo que passa
Em dor maior, bem maior...

Linda!
No que se apresenta
O triste se ausenta
Fez-se a alegria
Corra e olha o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia!
Ah! Corra e olha o céu
Que o sol vem trazer
Bom dia!...


Saturday, January 05, 2008

A TEMPESTADE








por Franscisco Sales


A primavera, doce na hora que partiu
O sol no poente suspenso
num adeus de luz a primavera
o céu criando estrelas peregrinas.

Naquela tarde
chegou a tempestade,
rugindo, louca, infinita,
abaixou os astros
e fustigou o mundo.

No dia seguinte
depois da tempestade,
sempre vem a calmaria;
estava tudo despedaçado
pela fúria extravagante.

Agora é dia,
lá fora a chuva cessou,
deixando um verniz no tempo.
E os pássaros, na melodia
dos seus cantos.

O céu amanheceu,
em pranto meditando,
e as nuvens com medo
fugiram, fugiram,
com medo da maldição.

Friday, November 09, 2007

NA MADRUGADA...


Estudos de câmera para storyboard.
Outono de 1999.
Posted by Picasa

TEMPO, TEMPO, TEMPO...


Thursday, September 20, 2007

GABIRU

Seu Narciso, quando menino, era chamado de Gabiru. Isto se aplica, digamos, a alguém que é "safo" nas coisas, ou seja, esperto, independente, flexível... Mas se você consultar o dicionário, vai encontrar ainda muitas outras! Bem... Talvez se surpreenda... Com exceção de algumas, posso te garantir: Gabiru é boa gente, menino estudioso, curioso pelas coisas, um verdadeiro brasileiro...






DONA FRANCISCA





Wednesday, September 19, 2007

ENCONTRAR SEU HERÓI

Criar personagens é uma busca. Sair a procura do seu protagonista, do seu herói. Seu Narciso... o encontrei várias vezes... Num ônibus, no metrô, numa esquina, no corredor de um prédio... Queria saber como ele se pareceria. Como seriam seus olhos, o desenho de sua barba, a cor dos seus cabelos? Nestes anos que se seguiram desde 1999, ele se transformou várias vezes. Seguem três designs diferenciados:














ANTIGOS DESENHOS

Estes são antigos desenhos produzidos ainda antes da definição do roteiro e da primeira versão do storyboard. São chamados "desenhos de conceito". Observações de um mundo que nunca, na verdade, eu via assim tão feio... Alguns desenhos tratam dos ambientes da favela, as lajes, os varais, que foram tratados com destaque no filme. Outros estudos buscam o cotidiano, as pessoas, seus objetos, a vida simples e seus afazeres.














Monday, April 23, 2007

MAKING OF - Fotos da Equipe






Em fevereiro/2007, em pleno carnaval (e dias que se seguiram...) fizemos o último mutirão (dentre tantos) para acelerar o processo de finalização. Foram dias quentes, trabalhosos e divertidos, regados a muito café, pães caseiros e almoços de Teresa! Clique em qualquer imagem para acessar o álbum.




Saturday, April 21, 2007

O SOL NASCERÁ...




A luz que iluminou Seu Narciso foi a música do mestre Adoniran Barbosa, o seu verdadeiro criador. Em "Despejo na Favela" , diante de uma difícil situação, Seu Narciso responde:
"(...)
pra mim não tem problema,
mas essa gente aí, como é que faz?"

Ousaria propor como resposta, os sóis de Cartola, símbolos da esperança, do recomeço e da força da felicidade. Em "Ao amanhecer" ele diz:


"(...)
Ao amanhecer , ao anoitecer
Cantam em bando aves fazendo verão
Ouve-se os acordes de um violão
E são eles , verdes periquitos"

e em "O Sol Nascerá":
"(...)
Fim da tempestade
O sol nascerá
Fim desta saudade
Hei de ter outro alguém para amar

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida "

REFLEXÕES DE NARCISO



"Há muito tempo... pisou na terra aquele que foi considerado o mais belo dentre os vivos. Tão belo, tão formoso que até a natureza que o emoldurava se tornava opaca... os pássaros, os lírios, os elementos mais esplendorosos esmaeciam à sua beleza... E assim, Narciso, a própria imagem da perfeição se tornava triste e incompleto, exilado neste mundo imperfeito, inadequado para este sempre. Ingênuo, apaixona-se por si, arrogante, morre na solidão."

Não seria o destino trágico de Seu Narciso com certeza! Embora o nome sempre me faça ter a vontade deste trocadilho irresistível... (como o título deste post!) Pois para mim é claro: Seu Narciso é um homem apaixonado pelo "belo". Mas seu espelho não é água, nem a face de velho homem, e sim o sol do alvorada, a janela de suas esperanças.



Nestes estudos, algumas variações para Seu Narciso. Percebe-se uma postura cansada e majestosa, respeitosamente projetada para frente como um louva-deus. Os olhos, miúdos na cabeça arbórea, necessitam os faróis imensos e pesados dos óculos para buscar a resposta lá longe... no amanhã!